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Primavera Silenciosa - Rachel Carson

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Como a bióloga marinha Rachel Carson despertou a consciência ambiental planetária
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Flávio de Carvalho Serpa
 

Quando a bióloga marinha Rachel Carlson lançou seu histórico livro, Primavera Silenciosa, em setembro de 1962, qualquer indústria química de inseticidas e outros derivados sintéticos podia lançar no meio ambiente o que bem entendessem, sem testes cientificamente projetados. No fundo, praticamente bastava que essas substâncias sintetizadas não matassem o químico responsável. Aliás, nem existia nos EUA a agência de proteção ambiental, a EPA.

Ao completar o cinquentenário, neste mês de setembro, Primavera Silenciosa já é um clássico do movimento de defesa do meio ambiente, e influenciou decisivamente várias gerações de cientistas e militantes. Al Gore, o ex-vice-presidente dos EUA e criador do documentário Uma verdade inconveniente, tinha em sua sala na Casa Branca somente um quadro de personalidade pendurado na parede: era uma foto de Rachel Carlson. Gore escreveu no prefácio da edição comemorativa de Primavera Silenciosa de 1992 o seguinte: "Para mim, Primavera Silenciosa teve um profundo impacto... realmente, Rachel Carlson foi uma das razões pelas quais me tornei consciente do meio ambiente e me envolvi com os assuntos ambientais. Carlson me influenciou mais do que qualquer pessoa, e talvez até mesmo mais do que todas elas juntas". Em 2007, o documentário de Gore levou ao mesmo tempo o Oscar da Academia de Cinema americana com o melhor documentário e, em seguida, arrebatou também o Nobel da Paz. Uma dívida histórica paga a Rachel.

Lamentavelmente ela não pode assistir o triunfo de sua empreitada, que catalisou a militância ecológica em todo planeta. Rachel morreu prematuramente de câncer, aos 56 anos, em 1964, dois anos depois de completar sua principal obra. Não pôde se orgulhar também das honrarias póstumas. A Escola de Jornalismo de Nova York considerou a Primavera Silenciosa uma das melhores reportagens investigativas do século XX. E o jornal inglês The Guardian a colocou no primeiro lugar entre as cem pessoas que mais contribuíram para a defesa do meio ambiente em todos os tempos.

Pouco conhecida na atual geração de militantes ecológicos no Brasil, Rachel é uma celebridade mundial.

Embora tenha sido uma bióloga marinha, o grande feito de Rachel foi traduzir toda a literatura científica disponível à época, numa brilhante obra literária de denúncia e divulgação científica. O livro tem nada menos de 57 das suas 328 páginas só de bibliografia de papers consultados. Isolados ou perdidos nas bibliotecas universitárias esses preciosos estudos e pesquisas só acumulavam poeira. Foi o gênio literário de Rachel que juntou toda essa munição científica pela primeira vez, tornando-a acessiva ao grande público leigo, e disparando os primeiros e ruidosos salvos na guerra dos ecólogos contra a toda poderosa indústria química da época.

Era uma guerra desigual, naturalmente. Uma jovem tímida, recatada, contra o poder arrogante dos acadêmicos, deslumbrados com a revolução da química orgânica. O porta-voz da associação das indústrias químicas dos EUA, Robert White-Stevens, não deixou por menos após a publicação da obra: "Os mais importantes argumentos da senhora Rachel Carson são grossas distorções da verdade, completamente sem suporte científico, evidência experimental e práticas gerais de trabalho de campo. A sugestão dela de que os pesticidas são de fato biocidas destruindo toda vida é obviamente absurda... Se alguém seguir os ensinamentos de senhora Carlson, vamos voltar à Idade Média, e os insetos, doenças e vermes voltariam a herdar a Terra".

A verdade histórica é que os testes conduzidos pelos fabricantes de pesticidas eram extremamente precários. O erro fundamental é que se testava o efeito sobre algum tipo de inseto ou erva daninha, isoladamente em laboratório. Mas na natureza e no mundo exterior aos assépticos laboratórios existe uma cadeia ecológica. Se os insetos morrem, os pássaros que se alimentam dele também desaparecem. Se as minhocas que rastejam nos campos bombardeados por pulverização aérea são contaminadas, os animais maiores que se alimentam dela também são intoxicados.